Congresso Internacional Universidade 2016

“Congresso Internacional Universidade 2016: uma Universidade Inovadora por um desenvolvimento sustentável e inclusivo”,

No mês de fevereiro, a Contee participou do X Congresso Universidad 2016, em Havana, Cuba. Entre as representantes da entidade estava a Coordenadora da Secretaria de Políticas Internacionais da Confederação, Maria Clotilde Lemos Petta. Abaixo compartilhamos o artigo de sua autoria sobre o evento, destacando as contribuições das Conferências Magistrais do Ministro de Educação Superior de Cuba, Rodolfo Alarcón Ortiz, e do teólogo brasileiro, Frei Beto.

Por Maria Clotilde Lemos Petta

O X Congresso Internacional de Educação Superior, realizado entre os dias 15 e 19 de fevereiro deste ano em Havana, Cuba, apontou com muita clareza os desafios colocados na construção de uma “Universidade Inovadora por um sustentável e inclusivo”. Este evento, do qual participei – integrando a delegação da CONTEE –, propiciou um espaço importante de reflexão, diálogo e encontro dos cerca de 2 mil educadores, de vários países, na busca de soluções dos desafios da educação superior e do futuro de nossos países.

A questão central colocada foi: como construir uma Universidade que cumpra a necessária função de apontar novas soluções científicas e tecnológicas e ao mesmo tempo tenha as portas abertas aos historicamente excluídos. Neste artigo objetivo destacar as contribuições dos palestrantes das duas Conferências Magistrais: Ministro de Educacional Superior de la República de Cuba, Rodolfo Alarcón Ortiz, e o teólogo e escritor brasileiro Frei Beto. As duas Conferencias através de abordagens diferenciadas destacam a missão cultural e ética da instituição universitária que, além da produção de conhecimentos, implica numa formação baseada em valores como solidariedade, a defesa da dignidade de todos os seres humanos e a preservação ambiental.

Inicialmente cabe considerar que o fato do Congresso se realizar em Havana, já coloca o debate num patamar mais elevado. Cuba, em que pese suas dificuldades, tem um sistema educacional reconhecido pelo seu caráter includente, gratuito e pelo excelente desempenho de seus estudantes. O analfabetismo foi erradicado há 55 anos, a taxa média de matrícula na educação primária é de 99% e na educação média, a taxa bruta é de 84%. Os debates ocorridos no Congresso revelam que o tratamento dado aos problemas da Universidade são abordados num enfoque mais amplo e coerente. O modelo universitário defendido põe grande ênfase nos temas da equidade e inclusão, mas também na importância do papel da Universidade na produção, difusão e uso do conhecimento relevante para o desenvolvimento sustentável e inclusivo.

A abertura do Congresso realizou-se no teatro Karl Marx, com uma belíssima apresentação do ballet e a primeira Conferência Magistral proferida pelo Ministro de Educação Superior da República de Cuba Rodolfo Alarcón Ortiz. Nesta conferência, o Ministro procurou elucidar a formulação pela qual o Congresso foi convocado considerando que “Universidade Inovadora por um desenvolvimento humano sustentável sugere uma conexão direta entre os fins da universidade e os projetos de sociedade”. Para Ortiz, as universidades devem formar “cidadãos cívicos, comprometidos com suas sociedades; que os prepare para a aprendizagem ao largo de toda a vida, baseada em problemas; que promova a criatividade mediante planos de estudo sintonizados com os processos produtivos e os sistemas de inovação”.

Neste modelo universitário, o próprio conceito de Desenvolvimento Humano Sustentável se distancia das visões tecnocráticas e economicistas na medida em que busca compatibilizar a satisfação das necessidades, opções e capacidades do ser humano como protagonista do desenvolvimento, com a garantia da cultura, distribuindo adequadamente os custos ambientais e ampliando a participação social.

A Conferencia Magistral proferida pelo Frei Beto, no Palácio das Convenções, ressaltou o papel da Universidade de propiciar aos estudantes uma formação humanista, baseada nos valores da “solidariedade, cooperação, a luta por justiça, a defesa da dignidade de todos os seres humanos e a preservação ambiental”. Na sua palestra, Frei Beto fez pesadas críticas ao modelo universitário dos EUA, que copiando o modelo alemão, foca no relacionamento estreito entre empresas e as universidades. Para Frei Beto a “universidade ianque se transformou em uma fábrica elitista de pragmatismo e liberalismo, estabelecendo uma cisão entre ciências naturais e ciências humanas e ética e investigação cientifica”. Na contraposição a este modelo, Frei Beto defende que o “humanismo deveria ser a estrela polar de nossas universidades, capaz de assinalar o rumo de todas as investigações científicas, os inventos tecnológicos, a formação de profissionais e de homens e mulheres dedicadas a política e administração pública”. No final de sua palestra, faz uma citação de Marti, que em Nuestra América já interpelava neste sentido:

“Como hão de sair das Universidades os governantes, se não existe da América onde se ensina os rudimentos da arte do governo, que é a análise dos elementos peculiares dos povos da América? …. conhecer é resolver. Conhecer o país, e governá-lo conforme o conhecimento, é o único modo de livrarmos das tiranias …” José Marti

Esta citação de Marti me faz lembrar Che Guevara falando da Universidade da forma poética, como era sua característica. Em discurso no Ato de Investidura como Doutor Honoris Causa da Escola de Pedagogia da Universidade Central “Marta Abreu “ de Las Villas (CUBA) em 28 de dezembro de 1959, Che assim se manifesta :

“Que se pinte de negro, não somente entre os alunos, senão também entre os professores; que se pinte de trabalhador e de camponês, que se pinte de povo, porque a Universidade é do povo …e o povo pintará a Universidade com as cores que lhe pareça”.

Penso que estas duas citações expressam de forma poética a questão central debatida no Congresso: com como construir uma Universidade que cumpra a necessária função de apontar novas soluções das demandas atuais e forme profissionais capacitados e dedicados a administração pública, como defendia José Marti, e ao mesmo tempo tenha as portas abertas aos historicamente excluídos, como sonhava Guevara.

Por Maria Clotilde Lemos Petta-Secretaria de Políticas Internacionais da CONTEE-Diretora do SINPRO Campinas e Região/CTB-Vice-presidente da CEA.

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